Escolhi uma roupa nova. Não preciso levar quase nada do último ano, muito menos a cueca amarela que diz que vai me dar fortuna. O trabalho dá fortuna, um dia, sei lá. Ainda não deu, mas não posso deixá-lo numa gaveta com coisas antigas. As cuecas eu posso. Eu posso deixar junto com as cuecas os problemas do último ano, como as pessoas que eu deixei de falar por serem chatas, por não fazerem mais parte da minha vida. Também não preciso mais listar meus contatos por “Melhores Amigos”, “Da Balada” e “Conhecidos”. Vou listar por nome, sobrenome e telefone que sei de cor e salteado. O resto está na gaveta, com as roupas antigas.

Deixei as rixas de lado, pois juntavam muito ácaro. Tenho rinite, não posso com poeira. Por isso deixei também todas as discussões bestas junto com as rixas e a poeira. Não porque elas me dão rinite, mas porque elas me dão nos nervos. Rinite me deixa irritado, discussões também.

Tô levando algo do último ano: o Orgulho. Das coisas velhas, é algo que me cai bem. E veste bem em quase todas as ocasiões, menos em eventos de gala. Do contrário ele fica muito bem no dia-a-dia. Alguns gostam, outros detestam, mas me sinto confortável com ele.

Comprei roupa nova e cheguei com ela este ano. Foi para sujar mesmo. Quero que ela fique bem suja, tão suja que eu não consiga limpá-la. Mas que fique lotada de sujeira deste ano. As roupas dos anos anteriores estão sujas de coisas que eu não quero limpar, nem alvejar.

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