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A mente engana. Nada do que ela diz ser realmente é.

As respostas que faltam estão todas presas em um porão que você nem imagina possuir. Escuro e lotado de coisas que você não se dá conta (mas sente falta), o quartinho do diabo é a saída para a sua redenção. Para isso, você só precisa descobrir como chegar lá dentro.

Ao contrário do que possa parecer, o porão do inferno pessoal não está isolado, perdido. Ele é o lugar favorito no mundo para colocar as pessoas que você ama. O pequeno espaço guarda grandes frustrações. Você não se dá conta delas, mas quem você ama as sente na pele. Ao reprimir um sentimento, você projeta na pessoa amada o sentimento reprimido em forma de acusação, negação, desilusão.

Assim como um projetor faz com que a película seja reproduzida em uma tela de cinema, quem recebe a projeção sente que o filme não é sobre a vida dela. Não há escolha, a não ser sentir o que o outro não quer. A mente recebe uma carga excessiva de problemas que não lhe pertencem, enquanto o outro só quer livrar a cabeça dos próprios erros.

Saia do porão. Fuja, antes que viver neste quarto escuro seja a única alternativa. Quem ama, busca conforto no ser amado. Quem ama e não sabe amar, entrega angustia e espera receber redenção em troca.

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É como uma criança. Ainda em formação, sem noção de mundo, sem consciência de si, sem saber o que sabe. Apesar da idade avançada, emocionalmente não passou pelas etapas que toda criança deve passar durante a sua vida.

Não sei, mas acho que foi privado de sentir profundamente cada sensação. Aparentemente, cada emoção agora é expressivamente maior do que realmente é, como se a infância, a puberdade e a fase adulta resolvessem admitir que o processo de construção da psiqué foi interrompido.

Você sente demais, mas não sabe o porquê. Toda dor é doída. Todo peso é tonelada. Todo amor é mordaz. Toda emoção vem à tona, sem escolha, pois um dia deixou de vir. A privação da evolução psicológica traz cicatrizes praticamente irreparáveis em um ser humano. A não ser que ele se dê conta – e geralmente não consegue se dar, não há Band-aid ou Merthiolate que curem essa fragilidade mental.

Que pena. Que pena que foi privado de crescer, de descobrir quem realmente é. Que pena que jamais terá essa ciência da consciência.

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Que a nossa felicidade não seja uma foto de Polaroid, instantânea, com tempo para se revelar e depois ser esquecida.

Que nosso amor seja doce como fruta, natural, sem corantes, acidulantes e artificialidades.

Que nosso destino não seja frágil como um dente de leão, que se desfaz com qualquer vento.

Que sejamos mais do que somos, a ponto de sermos mais do que queremos.