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Já não te amo mais. Era amor. Era tanto, que deixou de ser. É como um Big Bang, que começou no calor de um sentimento, explodiu, e hoje se expande. Ao contrário do universo, o meu amor está se expandindo ao inverso, ganhando espaço para mim e deixando que você fique em uma galáxia distante.

Não sei quando começou, mas acho que foi quando descobri que você nunca mudou, nunca aprendeu com os erros, você os adequou a mim e ao relacionamento. Tudo o que esteve errado um dia continua da mesma forma, mas como é no seu inconsciente, quase não consigo ver. O meu eu interior enxerga o seu e tudo o que vejo é o você de anos atrás, com uma nova roupa.

Isto já não é mais um relacionamento há tempos. Não sou teu amor, sou teu amante. Não sou teu amado, sou teu amigo. Ainda que as nomenclaturas não façam diferença, o modo que você emprega o sentimento faz. Sou o seu apoio, o alicerce que dá base para construir o futuro. A minha importância tem relação direta com os seus ideais, os seus dilemas e as suas conquistas. Ainda que eu seja importante, não sou o suficiente para ser amado como homem. Sou amado como pessoa.

E nós deixamos de existir há um tempo. É você na rua e eu em casa. É você deitado e eu vivendo. É você sentindo e eu sendo. Nos tornamos dependentes independentes. Já não precisamos mais de respaldo, os outros fazem isso com a gente. Não precisamos mais de conforto, a gente se conforta com o tempo. Não precisamos mais de amor, a gente se satisfaz com o pouco que recebe dos outros. Somos dois que deixaram de ser um só. Nos dividimos na esperança de não nos subtrairmos.

E se te perguntarem se ainda é amor, você vai dizer que é mais do que nunca, pois está perdido na construção do amar. Se me perguntarem se ainda é amor, vou dizer que já foi, pois amei até deixar de amar.

Já não te amo mais, já amei demais.

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Eu mexi nas suas coisas para me encontrar no meio delas.

Revirei as tuas gavetas na esperança de encontrar mais do que uma cueca ou uma bermuda. Queria ter encontrado aquele pedaço de mim que te dei no primeiro dia oficial do nosso amor.

Olhei todos os bolsos dos seus casacos, esperando encontrar uma foto feia da gente, um cartão sem graça de aniversário, a razão da gente ter se apaixonado.

Olhei todos os pares de meia e encontrei dinheiro escondido, pé sem par, papel de bala, pé sem par, lenço colorido, eu sem par.

Olhei em todas as caixas e organizadores e não vi nada além de colares, cartões velhos, RGs antigos, contas pagas, contas a pagar, contas vencidas e nada de contar a verdade para mim, que você colocou outro alguém nas suas prateleiras.

Eu encontrei no seu guarda-roupa a verdade que eu não gostaria de saber e a mentira que gostaria de ouvir para sempre. Não encontrei o que fiz para merecer. Não encontrei onde te perdi.

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Café de manhã.
Chá das cinco.
Amor não tem hora.