Tempo do antes - um sentimento por dia

Corri para o sucesso, tropecei na pressa e cai na mesmice. Acelerei o tempo do relógio e esqueci que ele não vai andar mais rápido do que o do destino. Pulei as etapas e estou voltando atrás para ver o que deixei em cada obstáculo.

Cheguei antes das perguntas e não sei o que fazer com as respostas. Cheguei no amanhã antes de mim e não sei o que fazer comigo.

Qual e a cor da grama do vizinho - um sentimento por dia

Se a grama do vizinho é mais verde eu não sei, nunca reparei. Tô aqui, sofrendo para deixar a minha bonitinha e ninguém pisar. Sai daí, não é lugar de passar. Acabei de arrumar o jardim. Acordo bem cedo para molhar as plantas, tirar ervas daninhas e umas pestes que aparecem. O jardim é meu, tenho que olhar para ele todos os dias e por isso quero ele bem bonito, bem florido. Não pisa aí, por favor. Confesso que às vezes é uma correria e não consigo dar atenção para nenhuma plantinha, acontece, né? A vida se ocupa de se ocupar da gente. Teve uma época que isso aqui ficou totalmente marrom, sem graça, porque não conseguia dar atenção. As plantas não tinham motivos para sorrir, eu também não. Tomei vergonha na cara e voltei a cuidar com mais dedicação. Fica bem melhor, não acha? Ohw, sai daí menino, vai estragar as minhas plantas. Vá pisar na sua grama, faz favor!

O amor nos tempos dos apps - um sentimento por dia

Era inevitável: o toque no smartphone lhe lembrava sempre o destino dos encontros contrariados.

Já não flertava mais. Se conhecer alguém dependesse de um olhar, esse olhar seria para o Tinder. Os dedos se tornaram ágeis, para passar por gente indesejada. Fotos das mais diversas surgiam na tela do celular, com gente fazendo a melhor pose, usando a melhor roupa e gastando o melhor filtro de Instagram para tentar traduzir o que é beleza. Cada foto bonita valia um like e cada like sonhava ser um match.

Nas conversas, a superficialidade ganhava forma. Falava-se sobre gostos no cinema, na música, na cozinha e na cama. Falava-se sobre o tipo ideal de pessoa, quando na verdade isso era irrelevante, desde que valesse uma fodinha. Falava-se sobre o futuro, desejos do amanhã e a vontade de trepar agora. Por mais que o papo tomasse forma, a melhor forma era falar de sexo.

Infelizmente, os dedos não dão prazer à tela do celular e os encontros reais tornaram-se necessários. Queria, tinha preguiça, mas sabia, mais por escarmento que por experiência, que um match tão fácil não podia durar muito tempo. Os encontros deixavam saudades das imagens na tela do celular. Dificilmente alguém era igual ao app e a neurolinguística deixava claro que cada encontro é um dislike pessoalmente. Os assuntos eram ainda mais frios e as pessoas mais distantes do que um GPS conseguiria identificar.

Sentiu falta da parte humana, de se envolver com alguém que conheceu no ônibus, na hora do almoço, em um bar, por um amigo. Sentiu falta de ter experiências reais, de matar a preguiça para conversar pessoalmente, de tocar sem querer, de sentir o perfume, de ver como se porta, se gesticula demais e se consegue ser feliz o tempo todo. Sentiu falta de se envolver o suficiente para o sexo rolar naturalmente, para dormir de conchinha, para trocar beijos matinais, para sentir saudade, para se apaixonar. Sentiu falta do físico, pois do virtual já estava saturado.

Trocou a sua conexão de 3G por conexões reais. Largou os aplicativos para se aplicar a conhecer alguém mais profundamente. Restaurou as configurações iniciais e percebeu que nada se compara com uma conversa no mundo físico. Buscou bons momentos e encontrou pessoas interessantes. Voltou a usar o celular para fazer mais ligações telefônicas e menos virtuais.

Não há app melhor do que viver.