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Preencho mentalmente um caderninho com o que não gosto, o que me desagrada. Preencho mentalmente também um caderninho sobre coisas que adoro, mas nunca sei onde deixo, em qual gaveta do meu cérebro está. Logo, o caderno de coisas que eu não gosto fica sempre na escrivaninha, à vista, para que eu possa desabafar com o papel tudo aquilo que de alguma forma me incomodou. E acumulo ali, em milhares de palavras, mágoas que não posso apagar.

E por mais que eu tente esquecer do caderno do mal, é impossível. A todo o momento alguém me lembra que ele existe. Logo, quem me lembrou que o caderninho vive, automaticamente estará lá.

Já perdi a conta de quantas coisas escrevi, e para quantas pessoas, mas uma em especial parece que pega a minha mão e brincar de fazer caligrafia, fazendo com que eu escreva todos os dias no caderninho endemoniado.

Não gostaria de escrever nada. Não gostaria de escrever sobre você. Não gostaria, mas nesse momento a sua mão está guiando a minha cabeça a escrever coisas desagradáveis que não posso dizer.

Lendo e relendo constantemente o caderno infeliz, noto que a única parte que não tem a minha letra é a que fala sobre você.

Se você escreveu o rumo da sua história na minha, por que escolheu o caderno errado?

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Num grande sofá, com milhares de problemas imaginários deliciosos à vontade, a Psiqué degusta em porções generosas o seu mundinho de tarja preta, recheado de alucinações emblemáticas.

Com tudo ao seu alcance, a Psiqué não pensa duas vezes antes de se fartar de resoluções nojentas e entupir suas veias com gordurosas invenções de seu âmago, chegando ao ponto de não querer sair do lugar, de não querer sair do sofá, pois está tudo muito cômodo e delicioso.

Após se fartar, a Psiqué torna-se obesa, e a obesidade, quando não é patológica, é confortável e aconchegante. Logo, a Psiqué vai adoecendo por não levantar, por fazer suas necessidades no próprio sofá, e o corpo e o pano unem-se em excremento.

E a Psiqué, num estado mórbido, morre no sofá da cabeça de quem a alimentou.

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Como quem espera a sua vez de ser atendido no banco, eu esperava ansiosamente ouvir algumas palavras. Seria como estar numa bendita fila de banco e o gerente gritasse meu nome, me convidando para um caixa especial, onde eu pagaria minhas contas num minuto. Ou melhor, o gerente gritando o meu nome com balões, confetes e serpentinas, fazendo muita festa por eu ser o cliente de algum número bem sugestivo e irrelevante. E, ainda mais incrível, uma grande festa com bailarinas de circo e elefantes entrando no banco, dizendo que as minhas contas da vida inteira estariam quitadas, independente do valor.

Contudo, continuei na fila do banco aguardando uma senhora de incontáveis anos tentando digitar a senha do cartão, anotada em um guardanapo, ajudada por três funcionários ao mesmo tempo e mesmo assim indo embora sem sucesso, pois a senha do guardanapo era apenas um número de telefone.

E continuei na fila, aguardando as velhas palavras que eu adoraria ouvir, no momento certo. Estava disposto a quitar todas as suas contas, o seu débito comigo.

Aguardei tanto, mas tanto, que o banco fechou. Do lado de fora, eu ouvi o que eu sempre quis ouvir. Mas aí já não me importava. O banco havia fechado. O meu coração também.